terça-feira, 6 de outubro de 2026

Leituras para quando o absurdo senta à mesa

 Ano de 2026. Vésperas de uma eleição para presidente e mais seis cargos políticos.

Um restaurante charmoso, vista para um canal com barquinhos coloridos, vinho gelado na mesa. Uma conversa que poderia ser boa. 

Até eu ouvir de uma mulher (prestem atenção! Uma mulher) que o problema do país começou lá atrás (leia-se anos 70) quando mulheres pobres, com muitos filhos, chegavam aos hospitais públicos para mais um parto e os médicos eram proibidos de fazer a ligadura das trompas.

Engoli em seco o vinho que não era seco, respirei e perguntei:

— Por que você recrimina o fato de ser proibido ligar as trompas de uma mulher sem a autorização e o desejo dela, mas nem cogita a possibilidade de fazer uma vasectomia no marido dessa mulher? Se ela estava parindo o décimo primeiro filho, imagine quantos filhos aquele mesmo homem poderia ter gerado. No mínimo, os mesmos onze.

A resposta veio com aquele tom de quem considera absurda a própria pergunta:

— Porque nem existia vasectomia!

Sim. E por que não existia? (Na verdade existia)

Foi aí que comecei a explicar um pouco do que eu sabia sobre aquele período.

Na década de 1970, as mulheres ainda eram pouco mais de 10% dos médicos no Brasil. E, dentro da própria medicina, a ginecologia ainda era uma área predominantemente masculina. As poucas mulheres que chegavam à medicina eram muito mais direcionadas para a pediatria e outras áreas consideradas de cuidado.

Então imagine a proporção de mulheres dentro da ginecologia. Fez as contas aí? 

Pois é, a medicina, durante muito tempo, foi construída majoritariamente por homens. E as decisões sobre o corpo, a sexualidade e a reprodução das mulheres também eram tomadas majoritariamente por homens.

Aí vieram uns resmungos, um “era assim mesmo”, um “você está olhando com os olhos de hoje” e coisas do gênero.

Então voltei para a pergunta que tinha provocado tudo aquilo:

— E por que você acha que era proibido, em pleno anos 70, um médico fazer uma ligadura em uma mulher com muitos filhos?

Porque não era simplesmente uma questão de “não deixar o médico fazer”.

A história daquele período é bem mais complicada.

De um lado, existiam as ideias de crescimento populacional e ocupação do território. De outro, movimentos e organizações defendiam o controle da natalidade, especialmente entre as populações mais pobres. E, nesse contexto, a esterilização feminina acabou atingindo justamente muitas mulheres pobres e com famílias numerosas.

E aí eu perguntei:

— É nisso que você acredita que esteja a solução? Controle de natalidade através do corpo da mulher? Não seria através de educação, assistência à saúde, ações de conscientização e incentivo?

A gravidez acontece no corpo da mulher. O parto acontece no corpo da mulher. A contracepção, durante muito tempo, foi tratada como responsabilidade da mulher. E, quando se falava em esterilização definitiva, era a mulher que acabava na mesa de cirurgia.

E a vasectomia existia, sim. Só que, claro, era tão pouco utilizada, a ponte de ser desconhecida pela maioria.

Foi aí que pensei: por que, quando falamos em controle da natalidade, quase sempre começamos pelo corpo da mulher?

A conversa continuou.

Um homem que estava na mesa, resolveu participar se dirigindo a mim:

— Isso é por causa desses livros que você lê.

É sério que estou ouvindo isso?! Entrei em um metaverso que me transportou ao passado?! 

Pronto. Ali eu perdi a paciência.

E, junto com ela, perdi também boa parte dos argumentos que eu vinha tentando construir. Contra-ataquei com ignorância. A frase me pegou.

Estamos em 2026. E frases como essa ainda são ditas.

Foi por esse tipo de conversa, que ainda existe neste país em pleno 2026, que eu não me surpreendi com o resultado desse primeiro turno.

Só me entristeceu.

E, ao mesmo tempo, me instigou.

A falar mais. A indicar mais livros. A incentivar mais questionamentos.

Porque, se ainda precisamos discutir tudo isso em 2026, talvez a melhor resposta seja continuar falando, lendo, estudando e fazendo perguntas.

Mesmo que, às vezes, seja preciso engolir em seco o vinho, respirar fundo e tentar não perder a paciência.


Segue uma lista de livros para evitarmos que esse tipo de absurdo ainda sente à mesa:



imagem gerada com o chatgpt

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Pin It button on image hover
▲ Topo