Um programa que eu gosto de fazer de vez em quando é entrar em uma livraria especial, passar pelas bancadas da entrada com os livros expostos, olhando meio de soslaio para os livros e passar a mão naquele que mais me chamara atenção por algum motivo qualquer. Seja pela cor da capa, por uma ilustração específica, pelo título ou pelo autor. Mas o objetivo é pegar um livro fora do planejado, do pensado, sem muito busca. Um livro que me atraia meio que pelo acaso.
Com esse livro em mãos subo para o bistrô, me sento sozinha, solicito uma bebida e algo para comer, e fico ali saboreando com o paladar, com os olhos, com os ouvidos, com a pele. Depois de algum tempo e de algumas página lidas eu resolvo se levo o livro para casa ou se o deixo de volta na prateleira. Normalmente levo pra casa. Foi o caso de “Como se encontrar na escrita”, de Ana Holanda
Neste caso o que captou o meu olhar de soslaio e atraiu a minha
mão como um ímã foi o título “Como se encontrar na escrita”, mas o que atraiu o
meu coração foi a chamada para uma escrita afetuosa. Eu sinto que eu preciso
jogar mais emoção quando escrevo. Eu tenho vontade de mergulhar mais nos
sentimentos envolvidos nas histórias que eu conto. E acho que faço pouco isso.
Eu gosto de contar histórias, eu gosto de ouvir histórias.
Me lembro desde sempre que quando me deito na cama, naquele momento de
desligamento para pegar no sono, eu aproveitar para recontar para mim mesma as
minhas histórias do dia, para pensar nas histórias que eu gostaria de viver.
Essas histórias sempre ficaram na minha cabeça, naquele momento,
e ao longo da noite, durante o sono, algumas ganhavam mais cores e detalhes nos
sonhos, outras ficavam mais nebulosas e confusas, e muitas simplesmente fluíam
para o universo.
Nunca fui muito de escreve. Sempre gostei de matemática e,
apesar de ser muito boa (na época) em português também, caí na armadilha do ou
se é um, ou se é outro. Ou se é de exatas, ou se é de humanas. Entrei nessa balela
imposta a partir de muito tempo, mesmo lá atrás, há mais tempo ainda essa divisão
não existir. Os grandes artistas eram matemáticos, os grandes filósofos era
físicos. Humanos e exatos e criando muito conhecimento. Mas em algum momento a educação
foi dividida em dois mundos. Como eu nasci e cresci nesse mundo dividido acreditei
por muito tempo que sou de exatas e por isso não escrevo bem. Nem devo tentar.
Ou melhor, só na redação do ENEM.
Mas nunca me conformei, gostei e acreditei verdadeiramente
nesse ou. Na minha álgebra essa deveria ser uma sentença com e. Podemos sim ser
humanamente exatos e exatamente de humanas. Penso isso. Acredito na junção dos
dois mundos. Mas de qualquer forma a limitação inserida desde sempre ainda tem
as suas raízes em mim.
Eu percebo que naturalmente as minhas histórias são contadas
com mais narrativa, relatando os fatos em si, o movimento, as cores. Mas
falando pouco dos arrepios, das lágrimas, dos apertos no coração, da carga de
emoção envolvida. Para isso preciso mergulhar mais, buscar palavras no fundo da
sacola.
Essa vontade constante de aproximar, juntar e misturar esses
dois lados que me fez pegar o livro “Como se encontrar na escrita”, levá-lo para
a triagem no café, me encantar e seguir com ele para casa. Li com atenção e com
emoção. Eu gostei muito de como a autora coloca toda a questão de experimentar
o texto, de se atirar na escrita. A cada capítulo são sugeridos exercícios que
estimulam o nosso sentir.
As páginas estimulam o nosso olhar.
Os capítulos nos estimulam a escrever com afeto e com entrega.
E acima de tudo nos encorajam a mostrar a nossa alma, a nossa essência, sem medo de julgamentos.
Não sei ainda se consigo a escrever com toda a alma que gostaria, com toda a carga de emoções que sinto. Mas o livro me mostrou muitos olhares e caminhos para refletir sobre os meus sentimentos contidos naquela história. Mesmo que esses não transbordem ainda para os textos, já estão sendo movimentados e mexidos dentro de mim. Fazendo com que a escrita aqui no blog já além de organizar as minhas ideias, servir de memória, incentivo a outras pessoas, compartilhar a vida. A escrita aqui no blog sirva mais do que para um contato com os outros, para um contato mais íntimo comigo mesma.

Sinopse: "Um texto escrito de maneira visceral é capaz de transformar, mudar, aproximar, afetar. Na verdade, é o que para mim faz mais sentido. Caso contrário, vamos seguir escrevendo os mesmos textos de sempre, a partir do olhar e do ponto de vista de sempre. Vamos seguir fingindo que estamos conversando com o outro por meio das palavras quando, na verdade, não estamos interagindo com ninguém a não ser com a gente mesmo. É uma conversa solitária. Mas dá para mudar isso."
Neste livro, Ana Holanda conduz o leitor numa jornada sobre a descoberta da Escrita Afetuosa. Longe de querer ditar regras ou se basear em truques, o objetivo aqui é fazer com que cada um encontre a própria voz, identifique a melhor forma de colocá-la no papel e, por fim, perca o medo de compartilhar o resultado.".
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