Aos domingos, assim que eu acordo, vou direto pegar o jornal em busca da Revista O Globo. Na verdade o meu objetivo é ler a crônica da Martha Medeiros. Amo! Leio todas! Mesmo sabendo que a coluna da escritora que eu tanto gosto fica no início da revista, não tem jeito, não consigo controlar a minha mania de ler as revistas de trás pra frente.
Então, antes de chegar ao meu destino, passei pela matéria "Para gostar de pintar" em que alguns escritores opinaram sobre o mais novo fenômeno editorial que são os livros para colorir.
Como tudo que faz sucesso gera pontos de vistas diferentes, alguns divergentes e até polêmicos. E confesso que a colocação de um dos escritores me incomodou: "imagino que a escolha faça parte de um processo de infantilização a que a gente assiste de forma crescente". É claro que me incomodou porque temos os livros, colorimos bastante, nos divertimos com eles e também relaxamos. Até fiz um post falando dos benefícios dos livros "Jardim Secreto" e Floresta Encantada". Então, no fundo, lá no fundinho, me senti sendo chamada de infantil.
Terminei a leitura da matéria e segui folheando a revista para as páginas iniciais e cheguei à crônica "Os largados" da Martha Medeiros. Neste texto ela fala do livro "Os largados", do italiano Michele Serra, que eu já fiquei louca pra ler. O livro conta a história de um pai que busca um caminho para se conectar, interagir e compartilhar interesses com um filho que vive ligado no mundo virtual deixando a vida correr lá fora.
Um trecho da crônica em especial me chamou mais a atenção: "É só olhar para trás e lembrar as inúmeras diferenças que tínhamos com nossos pais. Quem não? O conflito de gerações é um clássico na vida de qualquer um. Porém, essa guerra se dava no mesmo campo de batalha. Podíamos pensar de forma distinta, mas comíamos todos à mesa, a música vinha de um único equipamento de som instalado na casa, fazíamos passeios familiares, conversávamos - ou discutíamos, brigávamos, que seja, mas dentro de um universo comum. Não é mais assim.".
Pensei no trecho em particular, pensei na crônica como um todo, tirei o olhar da página e olhei pra minha sala. Estava eu e o marido em um sofá, eu lendo uma revista e ele outra. Ele me mostrou uma matéria sobre tapioca, eu mostrei pra ele uma matéria sobre uma nova profissão chamada celebrante. Os analógicos estavam cada um em em seu continente, mas dentro de um universo comum.
Já a Ana Luiza e a Sofia, as digitais, estavam no outro sofá, cada uma com um fone de ouvido. Uma via um filme no tablet e a outra ouvia música no seu iPhone.
Mesmo essa não sendo a rotina lá de casa, não ficamos assim "100% plugados, mas desconectados uns dos outros", aquilo me incomodou.
Comecei imediatamente a pensar em sugerir algo para fazer juntos e nos conectarmos ao que realmente importa, o que faz diferença, ao que acrescenta. Enquanto eu pensava em opções como, sairmos para caminhar, assistirmos algum filme, a Ana Luiza se levantou e como uma transmissão de pensamento falou: vamos colorir todos juntos? A Sofia retirou os fones e aceitou a proposta. Fomos colorir na varanda, nós três. O Antonio continuou a leitura dele, mas na varanda junto com a gente.
Enquanto coloríamos a música vinha do iPhone para todos. Conversamos sobre as músicas, sobre a semana cultural na escola, sobre as pinturas, sobre leituras e vários assuntos enquanto compartilhávamos aquele momento "infantil" de colorir.
Vendo essa cena que durou algumas horas aqui em casa eu concordo com a colocação do escritor paranaense, além de professor de literatura, Miguel Sanches Neto, que está lançando o romance "A segunda pátria" (já fiquei com vontade de ler o livro dele): "O sucesso representa uma tendência de estímulo à interatividade... Ainda que não tenha nenhuma narrativa, é um material gráfico que dá voz a quem compra...".
Quanto ao ponto de vista do escritor que percebe o sucesso dos livros para colorir como um processo de infantilização pode até ser válido para algumas pessoas. E se essa infantilização possibilita a interação entre pessoas, desperta o diálogo, estimula o convívio com familiares e amigos, aviva a criatividade, nos desconecta para nos conectarmos, eu quero mesmo é ser infantil.


















