Vou contar um fato que aconteceu esta semana que poderia ser algo semelhante ao post "
IndignAÇÃO". Apesar do sentimento provocado pela situação que vai ser contada ser praticamente o mesmo, este post vai ter o título IndigNADA. E ao final vocês irão entender a diferença.
Saí de casa com uma tremenda enxaqueca, daquelas que dá enjoo e fotofobia, para levar as minhas filhas para cortarem o cabelo. Acho que estou contando da minha enxaqueca mais para justificar a minha paralisia do que ela realmente seja relevante no contexto da história.
Chegamos ao salão na hora marcada e a Ana Luiza começou o tratamento e corte. Resolvi então ir com a Sofia em uma padaria metida a besta próxima ao salão. Eu queria beber alguma coisa para ver se aliviava o enjoo e a Sofia estava com fome.
Tá a padaria é metida a besta, mas eu gostava (já sentiram o tempo do verbo empregado aqui) dela. Mesmo a maioria das mesas sendo na calçada ela tem um certo charme, as comidinhas são gostosas e coisa e tal. Até já fui algumas vezes tomar um café da manhã por lá. Outras vezes fui na hora do lanche. Já passei para pegar um pão diferente para levar para casa. E sempre que vamos ao salão acabamos batendo o ponto na tal padoca metida a besta e frequentada por alguns seres também metidos a besta.
Estou eu e Sofia sentadas na nossa mesa já com o nosso pedido, conversando alegremente, apesar da dor que martela os meus miolos, ouvidos e mandíbulas, falando das nossas unhas com esmalte igual, fazendo umas fotos.
Quando estamos quase acabando o nosso lanchinho chega um homem ao nosso lado com algumas folhas de planta na mão e gentilmente, falando baixo e discretamente, diz que vai nos ensinar a fazer uma flor. Com toda habilidade ele faz o passo a passo da transformação da folha de planta em uma flor e entrega para a Sofia. Depois repete o mesmo processo e me dá uma flor.
Neste momento chega uma senhora aparentemente do tipo gente fina, elegante e sincera para ocupar a mesa ao lado. O homem das flores de folha de planta gentilmente puxa a cadeira para a senhora, até então elegante, sentar. Ela agradece educadamente e o homem lhe oferece uma flor que ela recusa educadamente.
Após isso ele olha para mim e para a Sofia diretamente, ligeiramente de costas para a mulher da mesa ao lado, e fala:
- Vou falar o português correto. Eu não quero dinheiro, mas se a senhora quiser me dar um misto quente e um guaraná eu aceito. Senão, vou me embora.
Gostei da forma como ele falou, sorri, chamei a garçonete, fiz o pedido e junto com ele a conta, pois já havíamos acabado.
O homem das flores caminhou para a mesa atrás da Sofia e da tal senhora, de frente para mim, e sentou para aguardar o seu pedido.
Me distraí com a Sofia olhando as flores e aguardando a conta. Um garçom, ou gerente, ou sei lá o quê da tal padoca metida a besta foi até o nosso homem das flores e pediu que ele saísse da mesa e esperasse naquela árvore.
Eu meio lesada, paralisada, querendo crer que a tal enxaqueca estava me deixando assim, não entendi e comentei com a Sofia, mais falando em voz alta para mim mesma, tentando raciocinar, do que outra coisa:
- Não entendi porque o garçom mandou o cara esperar lá. Se eu estou pagando o pedido dele, ele tem todo o direito de ficar sentado na mesa que afinal está ocupando a calçada.
Nisso, meio que ao mesmo tempo, a Sofia me avisou que a garçonete já tinha levado o lanche dele, o homem das flores de planta passou ao lado acenando e agradecendo e a garçonete chegou ao meu lado com a conta. Tudo meio rápido demais para a minha cabeça lenta (normalmente sou rápida de raciocínio e de reação, mas naquele dia eu estava meio paralisada).
Falei então com a garçonete que eu não entendi porque retiraram o cara da mesa e que ele tinha todo o direito de ficar na mesa porque o lanche dele estava pago. Na verdade fui falando e pagando a conta ao mesmo tempo. A garçonete disse que não sabia, porque ela era nova ali e se foi.
A senhora metida e elegante e metida a besta falou comigo educadamente e com voz suave de boa pessoa:
- É que ele é morador de rua.
Eu respondi também educadamente, apesar de achar um absurdo e não concordar em nada com o palpite da tal senhora.
- Não interessa. Ele é um cliente como eu, como você e como qualquer outro. O pedido dele está sendo pago. A errada fui eu que na hora que o garçom mandou o homem se retirar eu deveria ter me levantado, sentada à mesa com o homem das flores de planta, e avisado que ele iria ficar na mesa comigo.
A mulher fez uma cara meio de que não concordava. Eu não me interessei se ela concordava ou não, me levantei e voltei para o salão indigNADA. IndigNADA comigo mesma que não fiz NADA. Fiquei ali paralisada diante daquela situação.
Fui no caminho conversado com a Sofia sobre o ocorrido e ela falou:
- Eu acho que você deve escrever no blog.
Ficamos no salão por mais uma hora e meia e eu não relaxava. Continuava indigNADA. Agora eu estava indigNADA comigo e com o tal garçom que mandou o homem sair da mesa. Um sentimento ruim de revolta, de injustiça e até de me sentir desrespeitada como cliente.
Deixei o salão já atrasada para a minha aula de pintura, mas não consegui ir direto. Voltei na padoca metida a besta para falar com o tal garçom metido a besta.
Entrei educadamente e conversei com o cara na boa. Falei firme, mas educadamente. Coloquei todos os meus pontos em relação ao homem das flores daí o garçom disse que me entendia, mas que os outros clientes não pensavam como eu. Que inclusive tinha mandado o homem deixar a mesa porque a senhora ao meu lado tinha reclamado. Que ela, aquela senhora que aparentemente era gente fina, elegante e sincera, mas era na verdade podre, tinha reclamado inclusive da minha atitude. Que eu não deveria ter pagado um lanche daquela padaria para o homem da rua. Eu deveria ter dado o dinheiro para o homem comprar em outro lugar.
Perguntei ao garçom:
- Pelas minhas contas essa senhora está ocupando uma mesa sua por mais de uma hora e meia. Até agora ela consumiu o quê?
- Uma água e um cafezinho.
- Pois é, o homem das flores consumiu um misto quente de R$ 27,00 e um guaraná de R$ 5,00 e, com certeza, não ocuparia a sua mesa por mais de 15 minutos. Quem é melhor cliente para você? Além do mais, pelo visto, essa senhora espanta mais clientes do que o homem das flores, pois eu que vinha aqui com frequência e tomava um café da manhã completo, não apenas um cafezinho e uma água, não volto mais. (Mas cá entre nós, eu volto sim. Tô doida para encontrar o homem da flor de planta na rua para convidá-lo a ir comigo na podaca metida a besta, sentarmos na mesma mesa e comermos um misto quente com guaraná. Aí me despeço de vez da tal padaria que usa a calçada para colocar as mesas).
E ainda conversei mais alguns pontos com o garçom, gerente, frouxo, seja lá o quê. Saí de lá com vontade de fazer o barraco com a tal senhora, de virar a mesa dela, mas eu estava paralisada.
Cheguei na minha aula de pintura ainda indigNADA. Agora comigo, com o garçom e com a senhora que acha que caga um quilo certo.
Fiz a minha aula de pintura indigNADA. Fui deitar indigNADA.
Deitada na cama repassei a cena mil vezes e não me conformava por não ter tido alguma AÇÃO no momento.
E quando eu me lembrei que ainda paguei os 10% de gorjeta na parte do lanche do homem das flores que foi injustamente expulso da mesa e que saiu tão humildemente?! Fiquei deitada na cama mais indigNADA ainda.
Quando fui dar o título a este post eu observei o meu comportamento em relação a situação contada no post
IndignAÇÃO.
Naquele dia da lagoa, como no dia da praia (está aqui no post "
Eles acham ridículo? Tô nem aí!"), as situações me incomodaram, me geraram revolta, me causaram raiva, me deixaram aborrecida, chateada, e todos os sinônimos possíveis para a palavra indignada, mas a diferença é que eu tive uma AÇÃO. Não apenas fiquei indigNADA, eu senti indignAÇÃO.
Depois de tomar uma ação frente à situação que me incomodava todo o sentimento ruim passou. Ficou a história, ficou o aprendizado e ficou até uma parte divertida.
Neste dia da padoca metida a besta frequentada por algumas pessoas metidas a besta eu fiquei paralisada, não tomei a atitude que eu esperava de mim, não tive AÇÃO. Fiz NADA (mesmo este post saiu porque a Sofia insistiu). Com isso o sentimento ruim não só continuou, quanto cresceu.
A partir de hoje passei a preferir as palavras com sufixo AÇÃO.