quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Dedal, seringa e amamentação

Assim que eu soube da gravidez da Ana Luiza comecei um curso para gestantes. Fiz todas as aulas e tive o acompanhamento dela no parto. Ou seja, eu estava informada, orientada e teoricamente preparada para a amamentação. Até então, supertranquila e segura.

A AnaLu nasceu, mamou na sala de parto, foi para o quarto comigo e lá ficou.

Daí, já nos primeiros minutos do primeiro dia, começaram a pipocar algumas dúvidas: ela está dormindo, eu acordo para mamar? Mas ela está dormindo demais... eu acordo? Acordo, dou o peito, mas eu, como uma boa mãe de primeira viagem, fico cheia das neuras achando que a minha bebê não estava mamando o suficiente. Gente, como saber se a criança mamou o necessário se o peito não tem marcador de mililitros? Nesse momento eu passei a desejar, mas desejar seriamente, de verdade mesmo, do tipo o primeiro pedido que eu faria para o gênio da lâmpada, peitos transparentes com marcação de ml. Sim, meu sonho de consumo passou a ter seios transparentes com aqueles tracinhos pretos para eu ver o leite descendo enquanto a minha baby mamava e no final eu ter a certeza absoluta, totalmente matemática, de que ela mamou 100 ml, 120 ml, ou 200 ml, sei lá, a medida que fosse necessária.

No segundo dia o cenário mudou um pouco. Ao invés da criança dormir, dormir e não mamar, ela mamava, mamava e não dormia. Mas após o bebê mamar o suficiente ele não deveria ficar relaxadão com aquele sorriso de satisfação? Aí as dúvidas gritaram mais alto na cabeça dessa mãe que vos fala. Será que a minha filhinha está mamando direito? Será que ela está sabendo sugar?

Foi em um momento desses de dúvida que entra uma enfermeira no quarto para ver se a pega estava boa (olha que a Stephanie já tinha dito que estava tudo certo, que era assim mesmo, que eu podia ficar tranquila como uma mãe de quarta viagem) e diante dos meu questionamentos (porque eu como mãe de primeira viagem caí na besteira de perguntar para todo mundo que aparecia na minha frente se a AnaLu estava mamando direito, se ela já tinha engordado, e coisas assim) a moça de branco a minha frente veio com o veredicto: o que está dificultando é que você não tem bico.

- Como assim eu não tenho bico? Eu sempre achei o meu peito tão normalzinho!

- Mas bico bom para amamentar tem que ser assim – E me mostrou toda a ponta do dedo mindinho – O ideal para você é usar um bico de silicone.

Olhei desolada para o meu biquinho e ele estava longe de ser isso tudo.

Eu não sei como surgiram vários bicos de silicone no meu quarto. Juro, eu não fui. Eu não comprei aquilo porque eu nem sabia que existiam. Só pode ter sido o gênio da lâmpada que fez eles aparecerem ali, já que ele não podia atender ao primeiro pedido de ter peitos transparentes com marcadores, e agora ao meu segundo pedido de ter bicos enormes do tamanho de um dedo mindinho inteiro.

E eu comecei a usar o tal bico de silicone. E nada melhorou na minha vida. Pelo contrário. Os bicos sumiam e eu dei mais trabalho para São Longuinho. Quando eu achava os infelizes, eu os derretia estereilizando. Quando eu não os derretia e conseguia colocá-los nas tetas, eles caíam enquanto a minha baby linda e amada mamava. Sério, eu estava exausta e agora sonhava com um implante de bicos de silicone nos meus peitos. Cheguei até a colar os tais artefatos com micropore nas minhas peitolas cheias de leite.

Já em casa eu continuava a falar da minha dúvida sobre a Ana Luiza estar mamando direito e falava da minha falta de bico. Aí alguém, não me lembro quem, me indicou usar as tais conchas para recolher leite. Colocá-las dentro do sutiã bem apertado porque assim elas fariam pressão nos mamilos e o bico saltaria para fora. Lá fui eu usar as conchas.

Mas gente, era janeiro, um calor enlouquecedor no Rio de Janeiro, e nessa época ninguém adiciona nada ao corpo, só subtrai. Ainda mais se essa peça for de plástico. Odiei aquelas conchas. Além de me esquentarem horrores, quando eu ia abraçar alguém aquelas coisas duras me amassavam, quando eu ia pegar a minha filha no colo a cabecinha dela batia naquela parada dura de plástico. Até que um dia eu, que já estava à beira de um ataque de nervos, cheguei à janela, enfiei as duas mãos no sutiã, peguei uma concha em cada mão e as zuni pela janela. Foi libertador ver os dois minidiscos voadores rodando pelos ares e jogando leite para todos os lados. Deu pra sentir o nível de loucura que a pessoa estava atingindo?

Conchas voaram pelos ares, mas os bicos de silicone continuavam sendo usados. Eu acreditava plenamente que eles eram necessários, apesar de pouquíssimos práticos para mim.

E eu, ainda não satisfeita, ou melhor, ainda sem experiência suficiente para não pedir opinião alheia, continuava a falar da minha falta de bico para todos. Até que surgiu uma outra dica brilhante (será?) para fazer brotar bicos nas mamas desbicadas: colocar um dedal pressionando o bico, assim eles sairiam. Gente, vocês acreditam que eu fiz isso?! Fiz, sim. Mas deem um desconto, por favor. Eu estava exausta, sonada, descabelada e desbicada. Foi assim que eu passei uns dois dias com dedal nos bicos do peito, bem apertados no sutiã. Nem preciso dizer que o apetrecho fazedor de bico enchia de leite, caía a toda hora e me infernizava mais ainda. Até que um dia eu cheguei na janela e dei a eles o mesmo destino que as conchas.

Apenas um parêntese: eu não sou uma pessoa de jogar as coisas pela janela, nem no chão. Coloco lixo na lixeira e ainda separo para a coleta seletiva. Mas mães de primeira viagem nos primeiros dias não estão no seu estado normal e têm atenuantes.

Dedais voaram pelos ares, mas os bicos de silicone continuavam sendo usados. Eu ainda acreditava plenamente que eles eram necessários, apesar de pouquíssimos práticos para mim.


E pasmem, eu ainda não tinha aprendido a lição das boas dicas para fazer bico e continuei compartilhando a minha angústia até que veio a dica mais brilhante ainda: usa uma seringa para sugar o bico assim ele vai formar. Como assim? Você corta o bico da seringa, aquele que entra a agulha, tira o puxador e o coloca pela parte cortada. Assim você coloca a parte lisa no mamilo, puxa um pouco o bico do peito com a seringa invertida e deixa ali sungando. E acreditem se quiser, a mãe sonada, descabelada, cansada e desbicada, enquanto não estava amamentando, passou a andar pela casa com duas seringas, uma em cada peito. Imaginem a cena da mulher de cinta, sutiã de amamentar aberto e duas seringas no peito se enchendo de leite. Não, melhor não imaginar para não terem um choque de imaginação e ficarem bloqueados.


Não preciso nem dizer que as seringas tiveram o mesmo destino das conchas e dos dedais, né?



Mas depois dessa loucura, desespero, insanidade e bizarrice toda, essa história teve um final feliz.

Uma bela noite, mais ou menos após três semanas insanas de amamentação, eu me levantei não sei como para dar de mamar, achei os bicos também não sei como (deve ter sido São Longuinho), peguei a Ana Luiza, sentei na cadeira de amamentação, coloquei as minhas pernas para cima (um técnica que eu tinha para não correr o risco de deixar a minha bebêzuca cair caso eu apagasse), e apaguei. Acordei com dia claro sem me lembrar de ter saído da cama para amamentar e vi a Ana Luiza mamando sem os bicos de silicone que estavam no chão. Isso mesmo minha gente! Sem os bicos de silicone! E ela estava sugando, sugando de verdade!

Daí seguimos desbicadas, amamentadas e felizes. E eu mais seletiva nos conselhos e pitacos.

Depois de um ano e quatro meses, quando a Ana Luiza parou de mamar, eu continuava sem bico no seio esquerdo e com um biquinho bem tímido no lado direito. Tudo bem! Nada perceptível e eu continuei achando os meus peitos bem normaizinhos.

Seis anos e sete meses depois veio a Sofia, mas aí eu já era mãe de segunda viagem (e mesmo assim refiz o curso para gestantes) e estava experiente com essa parada de amamentação. Tão experiente que nem quis cadeira de amamentar, afinal eu dava de mamar de qualquer jeito, em qualquer lugar. A Sofia mamou na boa, mas se recusou a fazer uso do peito esquerdo desbicado, já que ela tinha o direito com bico meia-boca. Eu fiquei por um ano e dois meses desalinhada com um peitão com biquinho e um peitinho desbicado, mas tudo bem, sem problemas.

E amanhã a minha Ana Luiza completa 17 anos e hoje eu rio dessas loucuras que fiz para amamentá-la com muito amor.


A Autora:
Chris Ferreira

Chris Ferreira

Eu, uma mãe integral mesmo trabalhando em horário comercial, que procura equilibrar os diferentes papéis da mulher com prioridades e alegria.

Acredito que podemos levar a vida a sério, mas de forma divertida e é isto que eu tento mostrar no blog.

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9 comentários:

  1. Oi Chris,
    Eu n tive dificuldade pra amamentar o Arthur mas já li mt coisa de quem teve dificuldade. Mãe de primeira viagem é assim msm né?! Se mandarem a gente 'comer cocô' pq vai fazer bem ao bb, a gente n vai comer claro, mas vamos dar uma pensadinha tipo: Será?! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    A inexperiência promove mts micos e alguns sofrimentos, mas depois q passa a gente lembra até com carinho hehehehehehe

    Bjooooooooooos
    muitospedacinhosdemim.blogspot.com.br

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  2. Chris o que não fazemos por eles né ... Mais que bom que teve um final feliz

    Bjs Mi Gobbato

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  3. Chris o que não fazemos por eles né ... Mais que bom que teve um final feliz

    Bjs Mi Gobbato

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  4. Realmente até o São Longuinho esteve presente nessa fase da sua vida!!!! Agora que esses pitacos atrapalham muitas vezes as mamães de 1a viagem isso é fato!!!!

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  5. Que experiência amiga!
    Eu não tive dificuldade nenhuma para amamentar minhas três filhas. Mas, no meu caso eu só tive leite até o terceiro mês e mesmo fazendo o uso de hormônios que os obstetras me passavam, não resolveram. Daí parti para as mamadeiras e elas pegaram super bem ;)
    Beijinhos!
    https://dulcineiadesa.blogspot.com

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  6. Menina, que saga p fazer o bico aparecer!
    E vc, firme e forte, não sucumbiu. Yes!
    Bjs

    Milene
    www.diiirce.com.br

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  7. É, o que não fazemos pelos filhos, e como a gente acredita em tudo que indicam, quando somos mães de 1a viagem. Eu usei as conchar e gostei muito, me ajudaram bastante nesta fase.
    bjs,
    Alê
    http://www.dafertilidadeamaternidade.com.br/

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  8. Por isso nos chamamos "mães"! Só mãe mesmo para fazer de tudo pelos filhos. Ainda bem que vc se manteve forte e conseguiu final feliz!

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  9. Olá Cris,
    É tão bom relembrar esses momentos das nossas dificuldades e angústias com a chegada do nosso bebê. Tenha certeza que é muito bom você compartilhar conosco pois vai ajudar a muitas mamães que estão passando por essa fase de aprendizado e conhecimento de seus filhotes.
    Bjks

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